Homem
de Idéias 2005
Com 20 livros e mais de 100 artigos publicados, sociólogo
uruguaio, naturalizado brasileiro, é eleito o destaque intelectual
do ano
Paula Barcellos
Ao longo de 2005, o que não faltou foram idéias.
Não necessariamente boas, diga-se de passagem. Em especial
no plano político. Cassações, CPIs, caixa dois,
além de mensalão e valerioduto. Um ano produtivo para
neologismos. Pena serem tão diferentes daqueles inventados
por Guimarães Rosa. A crise detonada em Brasília pelo
ex-deputado Roberto Jefferson reverberou de tal forma que ofuscou
salve raríssimas exceções outros
setores da sociedade. Quem foi o destaque na cultura, na economia,
na ciência? Difícil responder. Não pela falta
de personalidades atuantes nessas áreas. Mas pela enxurrada
de siglas, legendas e nomes de políticos e empresários
que estamparam as manchetes dos jornais e ocuparam o imaginário
social brasileiro. A dificuldade ficou ainda mais nítida
durante a eleição do Homem de Idéias 2005.
Quando questionados sobre quem indicariam este ano, os jurados,
intelectuais que já receberam o título, reagiram da
mesma maneira: silêncio. De imediato, nenhum nome os vinha
à cabeça. A frase se repetiu 11 vezes: Foi um
ano tão complicado.
Complexo o bastante para provocar uma eleição bem
acirrada. Quem levou o título, com três votos, foi
o sociólogo Bernardo Sorj. Uruguaio, no Brasil desde 1976
e já naturalizado brasileiro, estudou antropologia e filosofia
no Uruguai, e obteve o título de Ph.D. em Sociologia na Universidade
de Manchester, Inglaterra. Atualmente, é professor titular
da UFRJ, diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e pesquisador
associado do Centro Internacional de Segurança Humana/Viva
Rio e do Instituto do Estudos de Trabalho e Sociedade (IETS). Além
de coordenar o portal Scielo de Ciências Sociais (http://socialsciences.scielo.org/),
que reúne as principais revistas de ciências sociais
da América Latina. Surpreso com a eleição,
o próprio Sorj, que ainda mantém seu sotaque espanhol,
também está sob impacto dessa nova perspectiva política:
No novo cenário, os partidos gravitam para o centro
e as novas utopias passaram a ser elaboradas por ONGs, com peso
moral mas sem representação nem mandato social ou
político, e que geralmente possuem como bandeira a defesa
dos mais diversos direitos explicou, no seu escritório
em Ipanema.
Coordenador geral do Viva Rio, Rubem César Fernandes ressaltou
o ano produtivo e inovador de Sorj, a partir de suas publicações.
Entre elas, destacam-se o livro Internet na favela (Editora Gramma)
e os ensaios sobre exclusão digital, desigualdade social
e perspectivas para a América Latina publicados em diversas
revistas especializadas.
Embora não tenha aparecido muito na imprensa, como comentou
o historiador José Murilo de Carvalho, Sorj teve atuação
de destaque no mundo das idéias:
Bernardo Sorj pensa a sociedade e a política, sem
esquecer a cultura, com liberdade inventiva e sem dogmas. Sua trajetória
caracteriza-se pela capacidade constante de se renovar, passando
da agro-indústria e das lutas no campo para a sociedade complexa,
na era da informação e da globalização,
chegando à sociedade civil e aos dilemas contemporâneos
da democracia descreveu o sociólogo Luiz Eduardo Soares,
lembrando que há muito tempo, pelo conjunto da obra,
devemos o título ao antropólogo Roberto DaMatta.
Empatados em segundo lugar, com dois votos cada, ficaram a senadora
Heloisa Helena, o compositor e escritor Chico Buarque e o economista
Carlos Lessa. Segundo o filósofo Leandro Konder, a senadora
merecia o título por estar muito articulada ao processo político.
Ou, nas palavras do sociólogo Francisco de Oliveira:
Apesar de ainda não sabermos o que vai acontecer
com o P-Sol, a ousadia política de Heloisa Helena merece
ser reconhecida.
Em um ano tão conturbado politicamente, o arquiteto Oscar
Niemeyer e o escritor Luis Fernando Verissimo evitaram tomar qualquer
partido e optaram por Chico Buarque. Ambos com a mesma justificativa:
o fato de ele ser um homem coerente e íntegro. Qualidades,
por sinal, que fizeram falta no Congresso.
Coerência, no entanto, presente também, como analisou
o economista e cientista político José Luís
Fiori, na atuação intelectual de Carlos Lessa, que
tentou gerir um banco de desenvolvimento mantendo-se fiel às
suas idéias formuladas na academia e mantendo seu papel de
professor, mesmo na função de presidente do Banco
Central, expondo suas idéias numa verdadeira cruzada conscientizadora.
Sem contar o prosseguimento que deu à luta árdua encetada
por Celso Furtado, como lembrou o crítico literário
Alfredo Bosi.
Outro economista também foi lembrado. Eduardo Giannetti
levou o voto do poeta Ferreira Gullar, por ter um pensamento
próprio e muito lúcido sobre a realidade social do
país. O mais indeciso componente do júri foi
o crítico Roberto Schwartz. Depois de passar dias pensando
e mostrando nítida decepção com a política,
optou pelo universo do cinema e apostou no cineasta Eduardo Escorel
pelo filme Vocação do poder .
Brasil: ''Meu país de adoção''
O senhor é naturalizado brasileiro e vive no Brasil desde
1976. O que o motivou a vir para cá?
- Minha primeira vivência do Brasil foi através do
Darcy Ribeiro, no Uruguai, quando fiz seu primeiro curso de Antropologia
logo no início do seu exílio e com quem desenvolvi
uma amizade pela qual sou grato. Através do Darcy tive um
primeiro vislumbre de uma forma de ser brasileira que me marcou
profundamente. O meu primeiro contato com o país foi em 1966,
quando morei um ano em São Paulo na minha época de
militância sionista-socialista-revolucionária (pois
é, existia esse tipo de coisa na época). Posteriormente,
foram decisivos meu casamento com uma paulista e os tempos difíceis
de ditadura militar pelos quais passava o Uruguai. O mais importante
são os motivos que me levaram a escolher o Brasil como meu
país de adoção: a sociabilidade brasileira,
com seus aspectos lúdicos, o otimismo e a curtição,
um antídoto para as angústias e a valorização
da memória e do intelectualismo que tanto minha origem judia
quanto a uruguaia pareciam condenar.
Este foi um ano marcado por forte crise dos sistemas de representação
político-partidários. Como analisar a atual política
brasileira?
- Em A democracia inesperada, argumento que o fim do comunismo
e da política centrada em torno do conflito de classes, junto
às tendências à individualização,
fragmentação social e marketing político, retiraram
da política partidária a dimensão de confronto
e a polarização em torno de ideologias que representavam
tanto visões da sociedade como interesses sociais conflitantes.
O novo discurso tem como eixo uma visão moral, consensual
do mínimo ao qual todo cidadão deveria ter acesso.
Ele se coloca como externo ao sistema político e demandador
do estado. A falta de instrumentos políticos efetivos para
transformar estas demandas em realidade transforma o discurso da
sociedade civil em boa medida ineficaz.
Essa ineficácia está refletida na política?
- A política brasileira reflete este quadro da democracia
contemporânea. Infelizmente o PT não se preparou para
governar dentro das realidades do mundo. Até a chegada do
Lula à presidência, o discurso do PT se confundia com
o das ONGs, inclusive tendo dificuldades de se distinguir da sociedade
civil, denunciando e demandando do estado, esquecendo que governar
exige programas que devem administrar recursos escassos, fazendo
escolhas difíceis. Em suma, passar do mundo ideal ao mundo
da necessidade.
Um de seus trabalhos é dedicado à geração
de intelectuais que lutou contra a ditadura, numa perspectiva de
esquerda, entre os quais se incluía o ex-presidente Fernando
Henrique. Como analisa as relações entre o intelectual
e o político?
- No livro A construção intelectual do Brasil contemporâneo,
argumento que o projeto societário e as políticas
aplicadas por Fernando Henrique são estranhas a sua formação
intelectual e à da sua geração. Elas foram
elaboradas fora do marco ideológico e teórico nos
quais ele transitou como sociólogo. Fernando Henrique sabia
que a alternativa socialista deixou de ser parte do horizonte, mesmo
distante, da vida política, e que os antigos parâmetros
se esfacelaram e a bússola enlouqueceu. O desafio de políticos
originados na esquerda tradicional é superar o saudosismo
por um passado ao qual não temos como retornar (e que, além
do mais, não deve ser idealizado) e o pragmatismo que se
adapta ao novo contexto sem grandeza nem visão de futuro
orientada por valores maiores. O primeiro passo é parar de
usar o anti-neoliberalismo como álibi para não pensar
de forma criativa a nova realidade e os novos caminhos de construção
de uma sociedade mais justa.
Em A nova sociedade brasileira, o senhor analisou as transformações
recentes da sociedade. Que novos processos políticos considera
importantes para compreender o Brasil?
- Entre as várias tendências que analiso no livro,
gostaria de salientar duas. A primeira é a formação
de uma consciência cidadã em torno dos direitos do
consumidor. Geralmente analistas da sociedade de consumo enfatizam
os malefícios do consumo supérfluo. Acho que existe
uma outra dimensão, positiva, na qual o cidadão vai
tomando consciência do direito de exigir das empresas qualidade
pelos produtos ou serviços que ele compra. Por extensão,
ele também é cada vez mais consciente de que deve
exigir do estado transparência e eficiência pelos gastos
que realiza, pois o governo é mantido pelos impostos que
o cidadão paga. Uma outra tendência que acredito fundamental,
pois altera a dinâmica política das democracias contemporâneas,
é o papel cada vez mais importante do poder judiciário.
A transferência para o judiciário de decisões
cujo conteúdo é controverso pode produzir tensões
na democracia, já que os funcionários do sistema judicial
não foram eleitos e não possuem mandato específico
da população para fazer escolhas políticas.
A importância crescente do sistema judiciário e dos
tribunais constitucionais aumenta os incentivos para que o poder
econômico e político procure influenciar, quando não
controlar, o judiciário, erodindo sua autonomia.
Atuante também no Viva Rio, o senhor examina o papel da
sociedade civil em A democracia inesperada. Qual a importância
do terceiro setor no combate à desigualdade social?
- Minha experiência no Viva Rio me mostrou os limites da
sociedade civil na luta contra a desigualdade. As ONGs, além
de vocalizar demandas por justiça social e de defesa do meio
ambiente, podem desenvolver projetos de impacto localizado que,
embora relevantes para o público-alvo, não modificam
de forma relevante a situação da maioria da população.
Elas têm o papel importante na promoção de projetos
sociais criativos que, se bem-sucedidos, podem se transformar em
políticas públicas ou serem absorvidos pelo mercado.
Até certo ponto, as ONGs também podem funcionar como
organizações terceirizadas pelo estado para operar
serviços em locais determinados. Mas elas não têm
capacidade de modificar os níveis de pobreza e desigualdade
social, que exigem uma redistribuição da riqueza,
controlada pelo estado e pelos grupos dominantes.
Em seus livros brasil@povo.com e Internet na favela, o senhor
expõe a relação entre exclusão digital
e desigualdade social. Qual é o papel do Estado nesse caso?
- As novas tecnologias da informação aumentam a qualidade,
quantidade e rapidez de acesso à informação.
Acontece que o valor efetivo da informação depende
da capacidade dos usuários de interpretá-la. Portanto,
lidar com a exclusão digital supõe enfrentar a baixa
qualidade de nosso sistema escolar. As políticas de universalização
do acesso à internet nos países em desenvolvimento
serão uma quimera se não estiverem associadas a outras
políticas sociais, em particular as de formação
escolar, onde deveria haver uma política de ensino da informática,
o que inclui não somente distribuição de computadores,
como formação de professores, oferta de programas
educacionais e um sistema eficaz de manutenção.
Há plano político para isso?
- O Brasil continua sem uma política conseqüente na
área e boa parte dos computadores existentes nas escolas
públicas virou sucata ou é subutilizada por falta
de recursos e de orientação pedagógica sobre
seu uso. O estado deve ter um papel central na luta contra a exclusão
digital, direta ou indiretamente, dando incentivos e subsídios
às empresas e às organizações da sociedade
civil, em particular às organizações comunitárias
e cyber-ativistas dos bairros pobres, inclusive para que desenvolvam
sites com conteúdos adequados às suas necessidades
e formas de expressão.
O senhor escreve muito a respeito da América Latina. Como
situar o Brasil no contexto latino-americano? A aproximação
Lula/ Chávez e o apoio a Evo Morales?
- Chávez e Morales sinalizam uma mudança no pêndulo
latino-americano, no sentido da emergência de líderes
mais sensíveis aos problemas de desigualdade e pobreza e
menos às demandas das empresas e do setor financeiro. Acontece
que o drama da América Latina é que os governos distributivistas
estão, em sua maioria, associados a políticos que
utilizam a mobilização popular para contornar e por
vezes destruir as instituições democráticas,
com discurso de confrontação com as classes médias,
erodindo a cultura democrática, que exige diálogo
e convivência pacífica entre forças em oposição.
Por sua vez, as democracias liberais têm se mostrado, em geral,
deficitárias na solução dos problemas de desigualdade
e pobreza.
Quais expectativas para 2006?
- A aproximação do Lula ao Chavéz é
parte do posicionamento do Lula para a campanha presidencial de
2006, procurando carona no prestígio do Chávez entre
os grupos de esquerda. O mesmo em relação ao apoio
ao candidato Evo Morales, uma atitude irresponsável pois
foi uma intromissão indevida na soberania de um pais vizinho.
Na campanha eleitoral em 2006, Lula possivelmente tentará
retomar uma retórica mais à esquerda, colocando-se
como vítima do sistema. Se isto acontecer será um
retrocesso para o PT, que deveria enfrentar o difícil caminho
de produzir um programa político criativo que responda aos
desafios da realidade nacional num contexto de globalização.
Não existe praticamente nada em comum entre a Venezuela,
a Bolívia e o Brasil, e, portanto, entre as presidências
de Chávez, Morales e Lula. Não temos as enormes rendas
do petróleo, base da autonomia do governo de Chávez,
nem massas indígenas mobilizadas por Morales. O Brasil é
mais complexo e possui instituições mais consolidadas,
incluindo, infelizmente, os privilégios de setores de classe
média ligados ao estado, a corrupção generalizada
e a impunidade dos grupos dominantes.
E seus próximos projetos?
- Em 2006 pretendo continuar minhas atividades docentes no Departamento
de Sociologia da UFRJ, e escrever, com um colega, Antonio Mitre,
um livro comparando os processos políticos de vários
governos latino-americanos no novo milênio (incluindo o do
Lula). Continuarei igualmente dirigindo o Centro Edelstein de Pesquisas
Sociais, cujo objetivo é promover a participação
dos cientistas sociais do Brasil e da América Latina no debate
internacional, e que acaba de lançar um site com 30 revistas
latino-americanas traduzidas para o inglês (http://socialsciences.scielo.org/).
Os artigos de Bernardo Sorj podem ser lidos em seu site http://www.bernardosorj.com
Fonte: Jornal
do Brasil, 31 de dezembro de 2005
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